A Insurreição Pernambucana (1645–1654): a revolta que expulsou os holandeses do Nordeste
Após décadas de domínio holandês, colonos luso-brasileiros, indígenas e negros libertos se uniram em um levante decisivo. Esta revolta passou a ser conhecida como Insurreição Pernambucana.
Publicado em: 30 de janeiro de 2026Em 1645, colonos luso-brasileiros se rebelaram contra os holandeses, que haviam ocupado o território nordestino de Pernambuco. Essa revolta deu início a um conflito que se estendeu até o ano de 1654, uniu colonos portugueses, negros e índios, resultando na expulsão dos holandeses, depois que a cidade de Recife foi conquistada pelas tropas luso-brasileiras. Este levante passou a ser conhecido como A Insurreição Pernambucana.
Confira a seguir os detalhes desta revolta, incluindo as partes envolvidas, as batalhas que a definiram e os motivos que fizeram os colonos se rebelarem contra os holandeses.
A Companhia Índias Ocidentais (WIC) e a ocupação holandesa

A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (em neerlandês: Geoctroyeerde Westindische Compagnie, GWC ou WIC) foi uma empresa fundada em junho de 1621 pelos Estados Gerais da República Holandesa para perseguir objetivos comerciais, coloniais e militares no mundo Atlântico, incluindo monopólios comerciais, colonização e corso contra as potências ibéricas (Espanha e Portugal).
Em fevereiro de 1630, uma frota da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, com mais de 50 navios sob o comando do Almirante Hendrick Cornelisz Loncq, desembarcou um exército ao norte de Olinda, capturando a capital e o porto de Recife após resistência inicial portuguesa. Os holandeses logo estabeleceram o controle sobre a próspera capitania produtora de açúcar, renomeando o território para Nova Holanda e marcando o ponto de apoio mais significativo da companhia nas Américas.
A administração melhorou sob o governo de Johan Maurits van Nassau-Siegen, que chegou a Recife no início de 1637 e governou até 1644. Como governador, Nassau conduziu uma campanha de expansão com considerável sucesso. Procurou conciliar os residentes não protestantes da colônia e impressioná-los com uma grande campanha de construção pública e privada. As campanhas de desenvolvimento de Nassau custavam muito, por isso, a WIC desesperada para cortar custos, destituiu o gastador Johan Maurits em 1644 e o substituiu por um Alto Conselho.

Após a saída de Nassau, o domínio holandês tornou-se mais opressivo, tanto econômica quanto religiosamente. Os plantadores portugueses em Pernambuco enfrentaram severas dificuldades econômicas sob o domínio holandês, principalmente devido à pesada tributação e ao monopólio exercido pela WIC sobre o comércio de açúcar, o que endividou os luso-brasileiros e interrompeu os mercados de exportação tradicionais. Além disso, as políticas holandesas privilegiaram o calvinismo, estabelecendo igrejas protestantes. Essas medidas semearam ressentimento entre os colonos portugueses católicos.
O juramento de 1645
O fim da União Ibérica, com a aclamação de D. João IV rei de Portugal, revigorou a identidade e o moral nacionais e criou um cenário favorável para a organização de um plano de retomada dos territórios portugueses. Os luso-brasileiros das capitanias do norte estavam endividados e, descontentes com a administração da WIC, aproveitaram-se das mudanças para articular uma revolta com o objetivo de expulsar os holandeses do Brasil.

O compromisso formal com a rebelião tomou forma em maio de 1645, quando dezoito líderes portugueses e luso-brasileiros se reuniram na Usina de Açúcar de São João, em Pernambuco, para assinar um juramento de resistência contra a autoridade colonial holandesa. Este encontro marcou o fundamento ideológico da revolta, unindo proprietários de usinas de açúcar, plantadores e outras elites desiludidas com o governo da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.
O juramento enfatizou motivações enraizadas na salvaguarda da fé católica contra os protestantes holandeses, na restauração da lealdade ao rei português em meio ao recente fim da União Ibérica e na recuperação das liberdades locais cerceadas pela administração estrangeira.
Homens como André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira, Henrique Dias, negro liberto, e Filipe Camarão, líder indígena potiguar, lideraram senhores de engenho, grupos de indígenas e africanos em um movimento de resistência à colonização holandesa. Assim iniciou, em 1645, a Insurreição Pernambucana.
A Insurreição Pernambucana
No início a rebelião se concentrou em ações de guerrilha de baixa intensidade contra posições holandesas, explorando a familiaridade dos rebeldes com o terreno acidentado do interior do Nordeste do Brasil, permitindo táticas de ataque e fuga que hostilizavam as forças holandesas e limitavam sua expansão além das fortificações costeiras.
O primeiro grande confronto foi a Batalha do Monte das Tabocas, ocorrida em 19 de abril de 1645, onde as forças luso-brasileiras emboscaram e derrotaram uma coluna expedicionária holandesa que tentava penetrar em áreas controladas pelos rebeldes. Esta foi a primeira grande derrota holandesa.
Outro confronto memorável ocorreu em 24 de abril de 1646, quando, em busca de suprimentos, holandeses tentavam saquear a então vila de São Lourenço de Tejucupapo e escolheram o momento em que haveria poucos homens no local. Não esperavam que as mulheres estivessem organizadas e prontas para a luta. As mulheres lutaram ferozmente com tudo o que tinham em mãos e conseguiram derrotar cerca de 600 holandeses.
A estratégia dos colonos foi de tomar o interior de Pernambuco e sitiar Recife, mantendo os holandeses presos nas fortificadas regiões costeiras. Isso levou os holandeses a tentarem grandes incursões a fim de romper o cerco e recuperar o controle do interior. Esses ataques holandeses levaram a duas batalhas decisivas, a primeira e a segunda Batalhas de Guararapes (1648-1649).
As Batalhas dos Guararapes
A Primeira Batalha de Guararapes ocorrida em 18-19 de abril de 1648 foi um confronto crucial na Insurreição Pernambucana. Os holandeses, comandados por Sigismund van Schoppe, enviaram uma força expedicionária de cerca de 6.000 homens na tentativa de romper o cerco luso-brasileiro e recuperar o controle do interior. Os luso-brasileiros tinham uma força multinacional de aproximadamente 2.200 a 2.500 soldados. Os exércitos se encontraram perto do Morro dos Guararapes, ao sul de Recife, em Pernambuco.

A batalha desenrolou-se quando as forças holandesas, dificultadas pelo terreno úmido, predominantemente pantanoso, não conseguiram fazer uma formação clássica em linha dos exércitos europeus. Forçados a lutar em uma frente estreita, as vantagens dos holandeses foram praticamente anuladas. Os holandeses sofreram pesadas perdas estimadas em mais de 1.000 mortos ou feridos, enquanto infligiram aproximadamente 480 (80 mortos e 400 feridos) aos defensores.
Essa vitória foi composta por um exército multiétnico de luso-brasileiros, indígenas e negros libertos, e passou a representar o surgimento de uma identidade militar brasileira unificada. No Brasil, o dia 19 de abril é consagrado como o Dia do Exército, em comemoração a esse episódio fundador da resistência nacional.
A Segunda Batalha de Guararapes foi travada em 19 de fevereiro de 1649 nas colinas acidentadas de Guararapes. Novamente uma força combinada de luso-brasileiros, indígenas e negros composta por aproximadamente 2.600 soldados enfrentaram um exército de 3.500 soldados holandeses profissionais que tentavam aliviar o cerco de Recife.
Este segundo e decisivo confronto resultou em pesadas baixas para os holandeses e foi uma vitória significativa para os luso-brasileiros. A partir daí os holandeses ficaram, até 1654, em uma posição puramente defensiva, já que haviam fracassado nas tentativas de romper o cerco de Recife.
O fim da Insurreição e a retirada holandesa
Após a Segunda Batalha de Guararapes, as forças portuguesas sob o comando de Francisco Barreto de Meneses mantiveram um longo cerco em torno de Recife, enquanto uma frota portuguesa conduziu um bloqueio a Recife no final de 1653, esgotando gradualmente os suprimentos de alimentos, munição e o moral dos holandeses, em meio aos rigores do clima tropical.

Cercados por terra e por mar, cansados pela guerra prolongada, e após sucessivas derrotas e sem qualquer perspectiva de auxílio militar, os holandeses assinaram sua rendição em 1654. Os holandeses, porém, só acertaram sua retirada a partir de 6 de agosto de 1661, após a assinatura de um tratado chamado Paz de Haia. Esse acordo estabeleceu que o chamado “Brasil holandês” seria devolvido aos portugueses após um pagamento equivalente a 63 toneladas de ouro.
Referências
- Recife – https://cesran.org/
- Queda do Muro de Berlim: Como 1989 remodelou o mundo moderno – https://dutchportcities.globalasiaprogram.org/
- Batalha dos Guararapes e Dia do Exército Brasileiro – https://www.gov.br/defesa/pt-br/area-de-imprensa/artigos-e-entrevistas-do-ministro
- insurreicao-pernambucana-nove-anos-de-lutas-para-expulsar-os-holandeses/ – Joelza Ester Domingues – https://ensinarhistoria.com.br/
- The Insurrection of Pernambuco and the Surrender of the Dutch in Brazil (1645–1654) – https://oxfordre.com/latinamericanhistory
- Insurreição Pernambucana (1645-1654): o que foi, causas e consequências – https://www.todamateria.com.br/