No final do século XIX, o Império Britânico dominava vastas regiões do mundo e era considerado praticamente invencível no campo de batalha. Buscando expandir sua influência na África do Sul, os britânicos lançaram uma campanha contra o Reino Zulu, dando início à Guerra Anglo-Zulu.

Em 1879, os britânicos avançaram contra os zulus confiantes de que seria uma vitória fácil. Suas tropas estavam armadas com o que havia de mais moderno na época, incluindo rifles e artilharia. Os britânicos subestimaram aqueles que consideravam “selvagens” guerreiros zulus, em sua maioria armados apenas com lanças e escudos.

O resultado foi uma forte e inesperada resistência dos zulus e uma das derrotas mais surpreendentes e humilhantes da história colonial britânica: a destruição quase completa de um exército britânico na Batalha de Isandlwana.

O Reino Zulu

Localizado na costa sudeste da África, onde hoje se encontra a África do Sul, o Reino Zulu foi consolidado no início do século XIX sob o comando de Shaka Zulu, que expandiu um pequeno chefado para um vasto território de aproximadamente 156.000 km².

Shaka Zulu era um grande estrategista e inovador militar, e transformou um pequeno exército de poucas centenas em um exército permanente de dezenas de milhares de soldados altamente treinados e disciplinados.

Guerreiros Zulus
Guerreiros Zulus

Shaka também empregou táticas avançadas e inovadoras, com destaque para a famosa formação “chifres de búfalo”, onde a força principal ou “peitoral” atacava pelo centro enquanto os “chifres”, dois grupos de flanqueamento avançavam pelos lados e cercavam o inimigo.

Após a morte de Shaka em 1828, seus sucessores continuaram com o sistema de organização, as táticas e as estratégias empregadas por Shaka. Essas táticas foram tão bem-sucedidas que permaneceram como as principais táticas ofensivas utilizadas pelos zulus contra os britânicos na Guerra Anglo-Zulu em 1879.

O caminho para a guerra

No final da década de 1870, os britânicos desejavam expandir a influência imperial na África do Sul. Sir Bartle Frere foi nomeado Alto Comissário Britânico para a África do Sul em 1879 com o objetivo de reunir as diversas colônias britânicas, as repúblicas bôeres e os grupos africanos independentes sob controle comum. A política britânica exigia que Frere obtivesse o controle sobre Zululândia, um reino independente.

Os britânicos lendo seu ultimato aos chefes zulus
Os britânicos lendo seu ultimato aos chefes zulus

Em 11 de dezembro de 1878, o ultimato de Frere foi dado ao Rei Zulu Cetshwayo, com exigências que deveriam ser cumpridas em 30 dias, até 11 de janeiro de 1879. O últimato incluía demandas impossíveis como a dissolução do exército Zulu, do qual dependia sua soberania e poder como rei.

Como era de se esperar, os zulus rejeitaram a cínica exigência britânica. Em janeiro de 1879, a guerra começou quando uma força liderada pelo tenente-general Lord Chelmsford invadiu Zululândia para impor as exigências da Grã-Bretanha. Lord Chelmsford dividiu suas forças de invasão em três colunas. Seu plano era cercar os zulus e atraí-los à batalha antes de capturar a capital real em Ulundi.

A Batalha de Isandlwana

A coluna central britânica de invasão, comandada pelo tenente-general Lord Chelmsford, avançou pelo interior e após dias de busca pelo exército principal Zulu, em 20 de janeiro de 1879, os soldados britânicos decidiram acampar à sombra de uma grande colina conhecida como Isandlwana, no coração do território Zulu.

Na manhã de 22 de janeiro, batedores britânicos detectaram movimentos zulus nas proximidades. Acreditando ser uma força menor e não a força principal dos zulus, Chelmsford dividiu seu exército e partiu em busca dos zulus, deixando o acampamento despreparado e mal fortificado. Pouco depois, o coronel A. W. Durnford chegou com um destacamento para reforçar o acampamento e assumir o comando.

Batalha de Isandlwana
Batalha de Isandlwana

Sem o conhecimento dos britânicos, o principal exército do rei Cetshwayo, composto por cerca de 20.000 guerreiros estava escondido próximo ao acampamento. O confronto começou quando batedores britânicos se deparam, para seu espanto, com o exército zulu, uma massa de 20.000 homens. Uma vez descobertos, os zulus não tiveram outra escolha senão partir para o ataque.

Os zulus avançaram firmemente com a tradicional posição dos chifres e peito do búfalo, atacando os britânicos de três lados. As forças do “peito” no centro sofreram enormes perdas, pois os britânicos concentraram fogo no peito, interrompendo temporariamente o ataque. Os chifres dos zulus flanquearam a infantaria britânica e atacaram o acampamento por trás, cercando o inimigo. Percebendo que estavam cercados, a infantaria britânica tentou recuar para salvar o acampamento em perigo. Isso permitiu que o centro zulu avançasse novamente e atacasse.

Encurtando a distância com sucesso, seguiu-se um combate corpo a corpo, e os zulus saíram vitoriosos. Os britânicos foram esmagados pela superioridade numérica. As baixas britânicas totalizaram mais de 1.300 soldados mortos, suprimentos e munições também foram apreendidos. Os zulus conquistaram sua maior vitória na guerra e o público vitoriano ficou chocado com a notícia de que “selvagens armados com lanças” haviam derrotado seu exército. A derrota foi tão grave que o governo britânico enviou reforços e disponibilizou todos os recursos necessários para vencer os zulus.

O contra-ataque britânico e o fim do Reino Zulu

Defesa de Rorke's Drift
Defesa de Rorke’s Drift

Um dia depois da Batalha de Isandlwana, uma força de 3.000 a 4.000 guerreiros zulus realizaram um ataque ao posto avançado de Rorke’s Drift, defendido por uma pequena guarnição de aproximadamente 150 defensores. Os britânicos se defenderam ferozmente e fizeram bom uso de seus rifles Martini-Henry. Após 12 horas de combate, as baixas britânicas foram de apenas 17 mortos, enquanto as baixas zulus chegam a estimativas de 500 mortos e feridos no total. Após o desastre em Isandlwana, essa vitória foi um reforço muito bem-vindo para o moral britânico.

Após meses de batalhas, em 4 de julho, os britânicos avançaram para um ataque decisivo contra Ulundi, a capital de Cetshwayo e centro de poder do Reino de Zulu. As forças britânicas sob o comando do Tenente-General Lord Chelmsford, num total de aproximadamente 5.000 soldados, estavam reforçadas com cavalaria e unidades de artilharia com metralhadoras Gatling. Opondo-se a eles estava o principal exército do Rei Cetshwayo, com cerca de 20.000 guerreiros Zulu.

A coluna de Chelmsford formou um grande quadrado oco em terreno aberto ao sul de Ulundi para repelir os esperados ataques zulus em todas as direções. Quando as forças zulus atacaram de múltiplas direções, como de costume, sofreram severas perdas diante das rajadas de fogo das metralhadoras Gatling e da artilharia.

A Batalha de Ulundi, 1879
A Batalha de Ulundi, 1879

Após a vitória, as tropas de Chelmsford avançaram sem oposição para Ulundi, queimando o kraal real e seus depósitos, o que simbolizou o colapso da autoridade centralizada zulu e provocou a fuga de Cetshwayo para se esconder, até ser capturado em agosto e exilado. Com o rei Zulu exilado para a Cidade do Cabo, o Reino Zulu foi dividido em treze distritos e fragmentado entre chefes tribais.

Na ausência de Cetshwayo, eclodiu uma guerra civil em Zululândia. Em 1883, os britânicos tentaram restaurar a ordem devolvendo Cetshwayo ao trono. No entanto, seus poderes estavam agora bastante reduzidos e ele morreu no ano seguinte. Em 1887, Zululândia foi declarada território britânico e uma década depois, incorporada à colônia britânica de Natal.

Referências