A Primeira Cruzada (1095–1099): Guerra e Massacre em Nome da Religião
Motivada pela fé, pela guerra e por interesses políticos, a Primeira Cruzada marcou o início de uma série de conflitos que moldariam a Idade Média.
Publicado em: 19 de janeiro de 2026Convocada pelo Papa Urbano II, a Primeira Cruzada (1095-1099) foi uma campanha militar das forças da Europa cristã ocidental para auxiliar o Império Bizantino contra os avanços dos turcos seljúcidas e recapturar a cidade de Jerusalém e a Terra Santa, que estavam sob controle muçulmano desde 638 d.C.
Esta foi a mais bem-sucedida das Cruzadas medievais e mobilizou cavaleiros, nobres e plebeus sob votos de peregrinação e penitência armada, impulsionados principalmente por motivações religiosas, incluindo a remissão de pecados e a defesa da fé, juntamente com oportunidades de ganho territorial e ascensão social.
O apelo por ajuda
A primeira e mais importante ação que acendeu o estopim que eventualmente levaria à eclosão da Primeira Cruzada foi a ascensão dos seljúcidas muçulmanos, uma tribo turca das estepes. Os seljúcidas obtiveram vitórias significativas sobre os bizantinos e conquistaram grandes cidades como Edessa, Antioquia e, em 1087, já haviam tomado o controle de Jerusalém.

O imperador bizantino Aleixo I Comneno (1081-1118), diante de um perigo existencial, percebeu que a expansão seljúcida na Terra Santa era uma oportunidade para obter o auxílio dos exércitos ocidentais em sua batalha pelo controle da Ásia Menor. Posteriormente, o imperador enviou um apelo ao Papa Urbano II solicitando assistência militar contra o avanço dos turcos seljúcidas. Aparentemente, Aleixo buscava ajuda mercenária direcionada e não esperava que Urbano abrisse a caixa de Pandora.
A convocação papal

Urbano II era um orador carismático e convincente, e, no final de 1095 convocou uma cruzada em um sermão durante o Concílio de Clermont, na França. O discurso, motivado pelo apelo anterior do imperador bizantino Aleixo I Comneno por ajuda militar, instou os cavaleiros francos a empreenderem uma peregrinação armada para socorrer os cristãos orientais, deter os avanços turcos e recuperar Jerusalém e a Terra Santa do domínio muçulmano. A mensagem, conhecida como Indulgência, era clara: aqueles que defendessem a Cristandade embarcariam em uma peregrinação, todos os seus pecados seriam perdoados e suas almas receberiam recompensas incalculáveis na vida após a morte.
O impacto do sermão foi imediato. A plateia irrompeu em fervor, cantando repetidamente “Deus vult” (“Deus o quer”). Após o Concílio, Urbano II então iniciou uma turnê de pregação na França entre 1095 e 1096 para recrutar cruzados, onde sua mensagem foi temperada com histórias exageradas de como, naquele exato momento, monumentos cristãos estavam sendo profanados e fiéis cristãos perseguidos e torturados impunemente.
O chamado foi um sucesso estrondoso. Por toda a Europa, guerreiros, movidos por fervor religioso, busca pela salvação pessoal, peregrinação, aventura e desejo por riquezas materiais, reuniram-se ao longo de 1096, prontos para embarcar rumo a Jerusalém.
A Cruzada Popular
O Papa Urbano II planejou a partida da cruzada para agosto de 1096, mas, antes disso, vários grupos inesperados de camponeses e cavaleiros de baixa patente se organizaram e partiram para Jerusalém por conta própria, em uma expedição conhecida como Cruzada Popular, liderada por Pedro, o Eremita, um monge francês e um dos principais pregadores da Primeira Cruzada.

Cerca de 40.000 pessoas comuns do norte da França e de partes da Alemanha seguiram Pedro, o Eremita, em sua jornada para o leste, rumo à Terra Santa. No entanto, durante a marcha, as pessoas comuns que se juntaram à Cruzada Popular usaram isso como pretexto para atacar os judeus locais. Os judeus eram vistos como inimigos da cristandade, e muitos cruzados viram a oportunidade de matá-los como uma forma de obter o favor de Deus. Isso desencadeou uma onda de violência antissemita sem precedentes por toda a Europa, com os cruzados visando os judeus para convertê-los ou matá-los.
Por fim, a Cruzada Camponesa alcançou o Império Bizantino em julho de 1096 e atravessou para a Ásia Menor, onde os exércitos turcos aguardavam. Sem disciplina militar e em uma terra estranha, foram emboscados e aniquilados perto de Niceia por um exército seljúcida liderado por Kilij Arslan I em outubro de 1096.
Começa a Primeira Cruzada
A Cruzada “oficial”, conhecida como Cruzada dos Príncipes, desta vez composta por nobres, cavaleiros e guerreiros profissionais, partiu da França no final do verão de 1096. Foram divididos em quatro exércitos e tomaram rotas diferentes em direção ao leste. Os cruzados eram liderados por nobres como: Raimundo IV de Toulouse, Godofredo de Bulhão, Boemundo de Taranto, Hugo de Vermandois, Estêvão de Blois e Roberto II da Flandres. Havia muitos outros nobres além deles, e com cada um comandando seu próprio contingente de cavaleiros.
Após uma longa viagem entre novembro de 1096 e abril de 1097, os Cruzados foram chegando um a um ao ponto de encontro, Constantinopla. Em troca de comida e suprimentos, o imperador Aleixo exigiu que os líderes lhe jurassem fidelidade e prometessem devolver ao Império Bizantino qualquer terra recuperada dos turcos. Após se reunir com os líderes da cruzada, o imperador bizantino logo providenciou navios para transportá-los através do oceano até a Ásia Menor e os territórios muçulmanos. Eles desembarcaram em abril de 1097.

O primeiro objetivo de sua campanha foi Niceia. A cidade, que servia como capital do Sultanato Seljúcida de Rum sob o comando de Kilij Arslan I, era fortificada com muralhas que apresentavam cerca de 200 torres e controlavam rotas importantes para a Ásia Menor. O cerco que se seguiu, foi a primeira grande batalha do exército cruzado. Uma estimativa moderna do número de envolvidos é de 50.000 a 60.000 pessoas, incluindo não combatentes.
Kilij Arslan, inicialmente ausente e subestimando a ameaça após sua vitória sobre a Cruzada Popular, voltou apressadamente com reforços e lançou um ataque surpresa aos cruzados por volta de maio de 1097, mas estes foram repelidos, forçando os seljúcidas a recuar. O cerco continuou, e, sem socorro à vista, a guarnição em Niceia se rendeu em junho de 1097, e a cidade foi entregue às tropas bizantinas.
Batalha de Dorileia

Após a rendição de Niceia, o exército cruzado deixou a cidade e iniciou uma marcha para leste através do interior da Anatólia em direção a Antioquia. A próxima grande batalha ocorreu apenas algumas semanas depois, em Dorileia, em julho de 1097.
Os cruzados foram emboscados por Kilij Arslan I , que havia reunido um exército de aproximadamente 20.000 a 40.000 soldados turcos de toda a Anatólia. O ataque começou ao amanhecer, pegando muitos cruzados desprevenidos, e durante horas, os cruzados resistiram ao exército turco, sofrendo pesadas baixas.
Tudo mudou quando um segundo contingente de cruzados liderados por Godofredo, chegou por volta do meio-dia. Os reforços cruzados logo atacaram os flancos turcos, rompendo o cerco e infligindo pesadas baixas para os muçulmanos. Os seljúcidas logo se viram em desvantagem e se retiraram, sendo perseguidos por quilômetros pelos cruzados. A batalha foi acirrada, mas essa vitória elevou o moral e deu às forças cruzadas a confiança necessária para continuar sua marcha em direção a Jerusalém.
Cerco de Antioquia
Os cruzados alcançaram os arredores de Antioquia em outubro de 1097. A próspera Antioquia era uma das cinco sedes patriarcais da Igreja Cristã e sua conquista seria superada apenas por Jerusalém.

A cidade era defendida pelo atabegue seljúcida Yaghi-Siyan, no comando de uma guarnição composta por cerca de 6.000 a 10.000 soldados turcos e armênios, reforçada por robustas muralhas de até 15 metros de altura com inúmeras torres. O cerco que se seguiu durou exaustivos meses e expôs o exército cruzado a fomes e doenças, essas condições geraram deserções em massa dos cruzados o que minou os esforços coordenados contra as defesas da cidade.
Ficou claro que Antioquia não seria tomada pela força, e então, em junho de 1098, Boemundo conseguiu subornar um comandante descontente de Yaghi-Siyan, que comandava três das torres da cidade, a cedê-las para que, em plena noite, os cruzados conseguissem atravessá-la e pudessem abrir caminho para o restante. Após meses de um cerco onde enfrentaram fome, doenças e duras batalhas, não havia espaço para compaixão na vida dos cruzados. O que seguiu foi uma matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Antioquia foi, portanto, tomada pela astúcia, e não pela negociação ou pela força.
A Batalha de Antioquia
Os cruzados mal tiveram tempo de ocupá-la e comemorar sua vitória antes da chegada de um exército de socorro muçulmano, liderados por Kerbogha de Mosul. Kerbogha, chegou aos arredores de Antioquia com um exército estimado entre 20.000 e 40.000 soldados, iniciando o segundo cerco contra a cidade recentemente capturada pelos cruzados. Suas forças rapidamente cercaram as fortificações, bloqueando todas as vias de suprimento e fuga, prendendo os cruzados na cidade.
Com escassez de alimentos e provavelmente sem condições de sobreviver ao cerco, a situação dos cruzados era desesperadora. No entanto, em 15 de junho de 1098, um líder religioso entre os cruzados, chamado Pedro Bartolomeu, afirmou ter encontrado milagrosamente a Lança Sagrada sob o piso da igreja de São Pedro, em Antioquia. A descoberta da Lança Sagrada ajudou a unir e inspirar os cruzados, que acreditavam que a relíquia lhes proporcionaria uma vitória milagrosa sobre o inimigo.
Em 28 de junho de 1098, após três dias de jejum, orações e procissões inspiradas pela suposta descoberta da Lança Sagrada, os líderes cruzados resolveram sair de Antioquia para enfrentar o exército de Kerbogha que os cercava, já que a fome contínua na cidade tornava a defesa insustentável. Os cruzados liderados por Boemundo de Taranto, conseguiram derrotar o exército muçulmano, contra todas as probabilidades.
A conquista de Antioquia e a derrota do exército muçulmano representaram uma vitória significativa e proporcionou aos cruzados um local seguro para usar como base na Terra Santa e abriu o caminho para Jerusalém.
A Conquista de Jerusalém
Era chegada a hora de tomar a cidade pelo qual arriscaram tudo. Os cruzados finalmente chegaram a Jerusalém em junho de 1099, após capturarem diversas cidades sírias no caminho. Do vasto exército que havia partido da Europa, restavam agora apenas cerca de entre 12.000 e 15.000 homens para alcançar o que deveria ser o objetivo principal da Cruzada.

Protegida por muralhas maciças, Jerusalém tinha sido conquistada pelos Fatímidas do Egito no ano anterior e conquistá-la seria um desafio militar difícil de superar. Para romper as defesas, os cruzados construíram máquinas de cerco, incluindo torres, aríetes e catapultas, utilizando madeira de navios genoveses que haviam chegado a Jaffa e materiais locais, apesar da escassez inicial.
O ataque decisivo começou em 15 de julho de 1099. O contingente de Godofredo tinha como alvo as muralhas do norte perto do Portão de Damasco , enquanto Raimundo atacava as fortificações do sul. Godofredo de Bulhão decidiu atacar o que ele considerava uma seção mais frágil da muralha. Com Godofredo à frente, os atacantes escalaram as defesas e se viram dentro da cidade em 15 de julho de 1099.
Uma vez lá dentro, os cruzados massacraram a população muçulmana e judaica da cidade, com relatos da época descrevendo ruas cobertas de sangue e estimativas de 10.000 a 70.000 mortes, embora os números exatos permaneçam contestados devido a relatos variados de cronistas e possível exagero para efeito retórico.
Os cruzados então começaram a estabelecer o domínio cristão sobre a cidade, após 461 anos de domínio muçulmano. Godofredo de Bulhão, o herói do cerco, tendo recusado o título de rei, foi coroado príncipe de Jerusalém. Na Itália, o Papa Urbano II morreu em 29 de julho de 1099 sem saber do sucesso de sua cruzada.
Um mês depois da conquista de Jerusalém, um grande exército fatimida chegou para retomar a cidade, mas foi derrotado em Ascalão, marcando o fim da Primeira Cruzada.
As Consequências da Primeira Cruzada
A Primeira Cruzada foi um sucesso estrondoso para os cristãos. Após a conquista, os cruzados fundaram quatro novos estados cruzados: o Condado de Edessa, o Principado de Antioquia, o Reino de Jerusalém e o Condado de Trípoli.
A Primeira Cruzada teve impactos profundos: Intensificou o ódio religioso entre cristãos e muçulmanos, fortaleceu o poder político da Igreja, estabeleceu um ciclo de guerras que duraria quase dois séculos e deixou marcas culturais, políticas e religiosas permanentes.
Referências
- The First Crusade -The Historical Association – Susan Edgington
- https://courses.lumenlearning.com/atd-herkimer-westerncivilization/chapter/the-first-crusade/
- https://www.historyskills.com/classroom/ancient-history/anc-1st-crusade-reading/?srsltid=AfmBOoq-ENQdICyGe17RT6uX7iWj9Q_oPnNPgRaN1kFlfq3vNnxn54KS
- https://www.usu.edu/markdamen/1320hist&civ/chapters/15crusad.htm
- https://www.history.org.uk/files/download/27435/1688551773/The_First_Crusade_and_capture_of_Jerusalem_15_July_1099_Dr_Simon_John.pdf
- https://www.history.org.uk/files/download/27435/1688551773/The_First_Crusade_and_capture_of_Jerusalem_15_July_1099_Dr_Simon_John.pdf
- https://www.thecollector.com/first-crusade-5-key-leaders-to-know/