Os Foguetes de Mysore: os precursores dos mísseis modernos
Descubra como os Foguetes de Mysore, usados no final do século XVIII na Índia, influenciaram o desenvolvimento dos primeiros mísseis modernos na Europa.
Publicado em: 5 de março de 2026Os mísseis estão entre as armas mais avançadas e destrutivas do mundo atualmente. Quando pensamos na origem e evolução dos mísseis e foguetes modernos, é comum associá-los às guerras do século XX ou aos avanços da Guerra Fria e da Corrida Espacial. No entanto, suas raízes remontam ao século XVIII, na Índia, com os Foguetes de Mysore.
Durante as Guerras Anglo-Mysore, o Reino de Mysore no sul da Índia desenvolveu uma arma inovadora: foguetes militares com tubos de ferro capazes de alcançar distâncias e causar impactos nunca antes vistos em armas deste tipo.
Desenvolvidos no Reino de Mysore durante a segunda metade do século XVIII, inicialmente sob o comando de Hyder Ali e posteriormente refinados e produzidos em massa sob o reinado de seu filho, Tipu Sultan, esses artefatos ficariam conhecidos como os Foguetes de Mysore.
De fogos de artifício a munições poderosas
A origem dos foguetes como armas remonta à China antiga, onde a pólvora foi inventada. A partir do século XIII, os chineses usavam esses foguetes para repelir as invasões mongóis. Feitos de materiais frágeis como bambu e papelão, esses foguetes eram mais parecidos com os fogos de artifício modernos. Eles careciam de precisão e não eram exatamente eficazes para causar danos ao inimigo. Em vez disso, sua função era iluminar o campo de batalha à noite e assustar cavalos e desorganizar formações inimigas.

Foi sob o comando de Hyder Ali que governou Mysore de 1761 a 1782, que o potencial destrutivo dos foguetes começou a ser explorado. Os engenheiros de Hyder Ali inovaram substituindo os frágeis invólucros de bambu ou papel por cilindros forjados de ferro. Esse avanço permitiu que os foguetes contivessem pressões de combustão mais altas, resultando em impulso, alcance e capacidade de carga superiores aos projetos anteriores.
Tipu Sultan, que governou Mysore de 1782 a 1799, fez aprimoramentos tecnológicos que incluíram revestimentos de ferro reforçados que suportavam pressões internas mais altas de propelentes sólidos compactados, estendendo o alcance para cerca de dois quilômetros, tornando-os extremamente avançados para a época. Além disso, Tipu também possuía centros de fabricação dedicados à produção em massa dos foguetes.
Os usos na guerra e o choque britânico
As forças de foguetes do exército de Mysore eram estruturadas como brigadas de artilharia especializadas, que chegaram a ter cerca de 5.000 homens sob o reinado de Tipu Sultan. Esses soldados eram especializados no transporte e lançamento dessas armas, aumentando a eficácia no campo de batalha contra as tropas britânicas e aliadas.
O exército de Tipu também dominou as táticas de lançamento em massa, centenas de soldados disparavam foguetes em rajadas coordenadas, criando ruído, fumaça e caos no campo de batalha. Soldados britânicos descreveram esses bombardeios como “aterrorizantes”, observando como os foguetes giravam erraticamente após atingirem o solo, incendiando tendas e carroças de munição.

O primeiro uso significativo de foguetes de Mysore ocorreu durante a Segunda Guerra Anglo-Mysore (1780-1784), com destaque para a Batalha de Pollilur (1780), quando as forças de Tipu derrotaram o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, e os foguetes desempenharam um papel decisivo. Relatos de oficiais britânicos descrevem seus cavalos entrando em pânico com o som do assobio e as explosões.
Tipu Sultan, apelidado por seus contemporâneos de “O Tigre de Mysore”, é frequentemente lembrado na Índia como um herói por sua bravura e firme oposição ao colonialismo britânico. Os foguetes de Mysore continuaram a ser utilizados durante a Quarta Guerra Anglo-Mysore (1799) no cerco de Seringapatam, onde infligiram baixas às forças britânicas, mas não conseguiram evitar a captura da cidade em 4 de maio de 1799 e a morte de Tipu Sultan no ataque.
Adoção da tecnologia pelos britânicos — Foguetes Congreve

Após a captura britânica de Seringapatam em 1799, os britânicos asseguraram extensos estoques de foguetes do Reino de Mysore. Esses artefatos foram enviados para o Arsenal de Woolwich, em Londres, para estudo e engenharia reversa.
Em Woolwich, o engenheiro e inventor Sir William Congreve examinou os foguetes de Mysore capturados e começou a projetar suas próprias versões. Os foguetes Congreve, como foram chamados, foram sistematicamente usados pelos britânicos durante as Guerras Napoleônicas e a Guerra de 1812 contra os Estados Unidos. Também foram usados na Batalha de Baltimore em 1814 e são mencionados no hino nacional dos Estados Unidos no verso “And the rockets’ red glare” (E o brilho vermelho dos foguetes).
Conclusão
Durante décadas, a história dos foguetes em Mysore foi lembrada principalmente por meio de registros coloniais. Mas a arqueologia moderna confirmou sua existência física. Em 2018, grandes depósitos contendo cilindros de ferro usados na fabricação de foguetes foram descobertos em um local historicamente ligado ao arsenal de Tipu Sultan e às instalações de produção de foguetes, com mais de 1.000 tubos de metal armazenados em depósitos subterrâneos.
O historiador aeroespacial A. Bowdoin Van Riper, em seu livro Rockets and Missiles: The Life Story of a Technology (2007), considera os foguetes de Mysore como um passo importante na evolução global da tecnologia de foguetes, preenchendo a lacuna entre as flechas de fogo chinesas e a propulsão moderna.
Os foguetes de Tipu Sultan eram mais do que armas: eram um símbolo de engenhosidade sob pressão. Numa época dominada por armamentos europeus, um reino regional indiano antecipou o futuro da guerra.
Referências
- Imagens via Wikimedia Commons sob domínio público
- NARASIMHA, Roddam. Rockets in Mysore and Britain, 1750–1850 A.D – https://www.researchgate.net/publication/37179995_Rockets_in_Mysore_and_Britain_1750-1850_AD
- Arun Dev & Shalini Umachandran. Story of Tipu Sultan`s rockets – https://timesofindia.indiatimes.com/city/bengaluru/story-of-tipu-sultans-rockets/articleshow/47853071.cms
- Rocketry and Space in India. Origins. From Hyder Ali to Vikram Sarabhai – https://www.astronauticsnow.com/indiarocketry/index.html
- Indian warrior king’s rocket cache found in abandoned well – https://www.theguardian.com/world/2018/jul/27/indian-warrior-king-tipu-sultan-rocket-cache-unearthed-in-abandoned-well