A Revolução Constitucionalista de 1932: o último grande conflito armado do Brasil
Em 9 de julho de 1932, São Paulo se levantou contra o governo Vargas no maior conflito armado do Brasil no século XX.
Publicado em: 8 de julho de 2026Celebrada anualmente em 9 de julho, a Revolução Constitucionalista de 1932 foi o maior conflito armado do Brasil no século XX e o último grande confronto militar travado em território nacional.
Travada entre 9 de julho e 2 de outubro de 1932, a guerra colocou o estado de São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas.
O objetivo da revolta era pressionar o governo federal a convocar uma Assembleia Constituinte e restaurar a ordem constitucional, encerrando o governo provisório instaurado após a Revolução de 1930. Ao mesmo tempo, parte da elite paulista buscava recuperar a influência política perdida com a queda da República Velha.
A revolta mobilizou rapidamente milhares de voluntários paulistas, sendo cerca de 35.000 a 40.000 combatentes. Opondo-se a eles estavam aproximadamente 100.000 soldados federais vindos de outros estados, apoiados por maior disponibilidade de armas, tanques, aviões e linhas contínuas de abastecimento.
Durante quase três meses, milhares de combatentes paulistas enfrentaram as forças do governo federal em uma guerra que mobilizou toda a sociedade paulista e marcou profundamente a história política do Brasil.
Embora tenha terminado com a derrota militar dos revolucionários, o conflito produziu consequências duradouras e ajudou a acelerar o retorno do Brasil ao regime constitucional.
Neste artigo
- A Revolução de 1930 e a perda da hegemonia paulista
- O estopim da revolta
- O início da Revolução Constitucionalista
- A guerra em território brasileiro
- A revolução foi realmente derrotada?
- O legado da Revolução Constitucionalista
A Revolução de 1930 e a perda da hegemonia paulista
Para entender por que essa guerra aconteceu, porém, é preciso voltar dois anos no tempo, até a Revolução de 1930.

Durante a República Velha (1889-1930), formou-se uma aliança entre os estados mais ricos e influentes do país na época, São Paulo e Minas Gerais, cujos representantes alternavam-se no posto da presidência da república naquilo que ficou conhecido como a “política do café com leite“.
Ou seja, na prática, São Paulo e Minas Gerais concentravam a maior parte da influência política da República Velha e exerciam forte controle sobre as eleições presidenciais.
Em 1930, porém, o presidente Washington Luís, de São Paulo, havia indicado Júlio Prestes, também paulista, como seu sucessor, violando o pacto informal do “café com leite”, que alternava o poder entre as elites cafeeiras de São Paulo e Minas Gerais.
Vargas, concorrendo como candidato da oposição apoiado por uma aliança do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, perdeu a eleição de março de 1930 para Prestes em meio a alegações generalizadas de fraude, alimentando uma grave crise política.

Após um golpe de Estado em outubro de 1930, uma aliança política liderada por Getúlio Vargas derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, encerrando a chamada República Velha.
A ascensão de Vargas provocou profundas mudanças na estrutura política brasileira. O novo presidente fechou o Congresso Nacional, anulou a Constituição de 1891 e depôs governadores de diversos estados, passando a nomear interventores.
Em vez de nomear um político paulista para governar o estado, Vargas escolheu inicialmente o tenente pernambucano João Alberto Lins de Barros como interventor federal. A decisão desagradou grande parte das elites políticas paulistas, que passaram a denunciar a perda da autonomia estadual e a crescente centralização do poder pelo governo provisório.
Em São Paulo, essas mudanças geraram crescente insatisfação. A elite política paulista, que havia exercido enorme influência durante a República Velha, passou a enxergar o novo governo como excessivamente centralizador.
O estopim da revolta
Ao longo de 1931 e 1932, as tensões aumentaram. Em São Paulo, diversos grupos políticos exigiam a redemocratização do Brasil, com a convocação de uma Assembleia Constituinte, a realização de eleições e o fim do governo provisório instaurado por Getúlio Vargas.
A tensão chegou ao ponto máximo em 23 de maio, quando uma manifestação contra o governo federal terminou em violência nas ruas da capital paulista.
Durante o protesto, os manifestantes entraram em confronto com partidários do Governo Federal, resultando na morte de quatro jovens estudantes:
Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Américo Camargo de Andrade, foram baleados e mortos no confronto. As iniciais de seus sobrenomes deram origem à sigla MMDC, que rapidamente se transformou no principal símbolo da Revolução Constitucionalista.
Um quinto jovem, Orlando de Oliveira Alvarenga, também foi ferido e morreu semanas depois, mas as iniciais dos quatro primeiros se tornaram o símbolo mais marcante do movimento.

A morte dos estudantes provocou enorme comoção em São Paulo e fortaleceu o movimento constitucionalista. Nas semanas seguintes, a mobilização cresceu rapidamente e uniu diferentes setores da sociedade paulista – desde a elite cafeeira, que financiou o movimento, até estudantes, operários e mulheres, que participaram ativamente.
O início da Revolução Constitucionalista
Na noite de 9 de julho de 1932, teve início a Revolução Constitucionalista. Sob a liderança do interventor Pedro de Toledo e do general Isidoro Dias Lopes, tropas paulistas ocuparam quartéis, repartições públicas e pontos estratégicos, dando início ao conflito contra o governo federal de Getúlio Vargas.

Os objetivos militares declarados pelas lideranças de São Paulo não eram derrubar o Estado brasileiro nem separar São Paulo do restante do país, mas sim resistir ao governo Vargas e forçar negociações para a redemocratização do país, incluindo a convocação de uma Assembleia Constituinte e a restauração da autonomia estadual.
A guerra em território brasileiro
A estratégia militar inicial era defensiva: proteger o território paulista, controlar pontos estratégicos e impedir o avanço federal até que a pressão política surtisse efeito.

Uma mobilização sem precedentes
As campanhas de recrutamento mobilizaram centenas de milhares de paulistas. Estima-se que cerca de 200 mil pessoas tenham se apresentado como voluntárias, embora entre 35 mil e 40 mil tenham efetivamente participado dos combates.
Os paulistas contavam com armamento leve (fuzis e revólveres), algumas peças de artilharia e aviões improvisados, mas enfrentavam escassez de munições e recursos logísticos.
As forças federais, sob o comando de generais como Góes Monteiro, reuniram cerca de 100.000 homens, incluindo tropas do Exército, Marinha e milícias aliadas de outros estados. Eles tinham superioridade em armamento, com tanques, aviões e acesso a suprimentos contínuos. O governo Vargas também controlava a infraestrutura ferroviária e portuária, dificultando o abastecimento paulista.
As principais frentes de combate
- Vale do Paraíba
- Fronteira com Minas Gerais
- Região de Itararé
- Fronteira com o Paraná

Durante semanas, cidades do interior paulista conviveram com trincheiras, bombardeios, deslocamento de tropas e interrupções nas comunicações, algo raramente visto na história brasileira.
No sul do estado, a Batalha de Itararé foi um dos confrontos significativos. Os paulistas fortificaram suas posições e usaram táticas de emboscada, aproveitando o terreno elevado para retardar o avanço das tropas federais. No entanto, a superioridade numérica e o uso de artilharia pesada pelas forças federais forçaram a retirada paulista após dias de combates intensos.
O Vale do Paraíba, principal corredor entre São Paulo e Rio de Janeiro, a capital federal na época, foi o teatro de guerra mais importante. Os paulistas estabeleceram uma linha de defesa ao longo de cidades como Cruzeiro, Lorena e Pindamonhangaba, cavando trincheiras e posicionando atiradores em colinas. O objetivo era impedir que as forças federais, avançando do Rio de Janeiro, chegassem à capital paulista.

Apesar da resistência, o avanço contínuo das tropas federais e a falta de reforços tornaram cada vez mais difícil manter a linha defensiva.
No litoral, a Marinha bloqueou o porto de Santos, cortando o acesso a suprimentos externos e minando as exportações de café, base da economia paulista. Esse cerco gradual desgastou os paulistas, que não conseguiram manter linhas de suprimento eficientes.
A guerra também chegou aos céus com o emprego de aviões pelos dois lados. Pela primeira vez, em um conflito de grande escala no Brasil, aeronaves foram utilizadas em missões de reconhecimento, ataques a posições inimigas e bombardeios.

O fim do conflito
Após quase três meses de combates, a situação militar paulista tornou-se insustentável. Isolados e enfrentando escassez de armas, munições e suprimentos, os líderes revolucionários iniciaram negociações com o governo federal. A rendição foi assinada em 2 de outubro de 1932.
Estima-se que 830 combatentes constitucionalistas tenham perdido a vida durante o conflito, número superior ao de soldados brasileiros mortos em combate pela Força Expedicionária Brasileira na Campanha da Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
Militarmente, a revolução havia fracassado. Politicamente, porém, os resultados seriam mais complexos.
A revolução foi realmente derrotada?
Como vimos anteriormente, no fim do conflito, São Paulo ficou isolado militarmente e sem condições de continuar resistindo. Em 2 de outubro de 1932, os líderes constitucionalistas assinaram a rendição, encerrando oficialmente o conflito.
Do ponto de vista militar, a resposta é clara: São Paulo foi derrotado.
No entanto, nos anos seguintes, muitas das reivindicações do movimento acabaram sendo atendidas. Em 1933, houve, de fato, uma eleição para a Assembleia Constituinte e, em 1934, foi promulgada uma nova Constituição brasileira.

A revolução, embora derrotada militarmente, aumentou significativamente a pressão sobre o governo Vargas e contribuiu para acelerar o retorno do país ao regime constitucional.
O legado da Revolução Constitucionalista
A Revolução Constitucionalista permanece como um dos eventos mais marcantes da história paulista e brasileira.
Apesar da derrota, a revolução fortaleceu o senso de identidade e unidade em São Paulo. O 9 de julho, data do início da revolução, foi instituído como feriado estadual, celebrado até hoje.
O principal símbolo dessa memória é o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, localizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Com 72 metros de altura, o monumento funciona como mausoléu e abriga os restos mortais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC), além de centenas de combatentes que participaram da revolução.

Mais de nove décadas depois, a Revolução de 1932 permanece como o último grande conflito armado travado em solo brasileiro e um dos capítulos mais importantes da história nacional.
Referências
- Imagens via Wikimedia Commons sob domínio público
- A Guerra dos Paulistas | Documentário – https://www.youtube.com/watch?v=PlV0ojKO6wg
- Fábio Gallacci. Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “Obelisco: marco da resistência paulista em defesa da democracia no passado, presente e futuro” – https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=455843
- Lorenzo Baer. Aeroflap. “Operações aéreas na Revolução Constitucionalista” – https://www.aeroflap.com.br/en/air-operations-in-the-constitutionalist-revolution/
- Fundação Getulio Vargas. “REVOLUÇÃO DE 1932” – https://atlas.fgv.br/verbete/6366
- Eliza Kobayashi. Nova Escola. “O que foi a revolução constitucionalista de 1932?” – https://novaescola.org.br/conteudo/333/o-que-foi-a-revolucao-constitucionalista-de-1932
- Brasil Paralelo. “Revolução Constitucionalista de 1932: a luta paulista contra a ditadura de Vargas” – https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/revolucao-constitucionalista-de-1932-a-luta-paulista-contra-a-ditadura-de-vargas
- Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “76 anos da revolta constitucionalista de 1932” – https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=304804
- Edison Veiga. BBC Brasil. “9 de julho: as marcas em São Paulo da revolução por trás do feriado” – https://www.bbc.com/portuguese/articles/c978gzjg0dlo
- Juliano Galisi. Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “O que foi a Revolução Constitucionalista? Entendendo o 9 de julho, data magna de São Paulo” – https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=455585