Celebrada anualmente em 9 de julho, a Revolução Constitucionalista de 1932 foi o maior conflito armado do Brasil no século XX e o último grande confronto militar travado em território nacional.

Travada entre 9 de julho e 2 de outubro de 1932, a guerra colocou o estado de São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas.

O objetivo da revolta era pressionar o governo federal a convocar uma Assembleia Constituinte e restaurar a ordem constitucional, encerrando o governo provisório instaurado após a Revolução de 1930. Ao mesmo tempo, parte da elite paulista buscava recuperar a influência política perdida com a queda da República Velha.

A revolta mobilizou rapidamente milhares de voluntários paulistas, sendo cerca de 35.000 a 40.000 combatentes. Opondo-se a eles estavam aproximadamente 100.000 soldados federais vindos de outros estados, apoiados por maior disponibilidade de armas, tanques, aviões e linhas contínuas de abastecimento.

Durante quase três meses, milhares de combatentes paulistas enfrentaram as forças do governo federal em uma guerra que mobilizou toda a sociedade paulista e marcou profundamente a história política do Brasil.

Embora tenha terminado com a derrota militar dos revolucionários, o conflito produziu consequências duradouras e ajudou a acelerar o retorno do Brasil ao regime constitucional.

Neste artigo

A Revolução de 1930 e a perda da hegemonia paulista

Para entender por que essa guerra aconteceu, porém, é preciso voltar dois anos no tempo, até a Revolução de 1930.

Getulio Vargas durante a Revolução de 1930
Getulio Vargas durante a Revolução de 1930

Durante a República Velha (1889-1930), formou-se uma aliança entre os estados mais ricos e influentes do país na época, São Paulo e Minas Gerais, cujos representantes alternavam-se no posto da presidência da república naquilo que ficou conhecido como a “política do café com leite“.

Ou seja, na prática, São Paulo e Minas Gerais concentravam a maior parte da influência política da República Velha e exerciam forte controle sobre as eleições presidenciais.

Em 1930, porém, o presidente Washington Luís, de São Paulo, havia indicado Júlio Prestes, também paulista, como seu sucessor, violando o pacto informal do “café com leite”, que alternava o poder entre as elites cafeeiras de São Paulo e Minas Gerais.

Vargas, concorrendo como candidato da oposição apoiado por uma aliança do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, perdeu a eleição de março de 1930 para Prestes em meio a alegações generalizadas de fraude, alimentando uma grave crise política.

Arte ilustrando a política do café com leite
Arte ilustrando a política do café com leite

Após um golpe de Estado em outubro de 1930, uma aliança política liderada por Getúlio Vargas derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, encerrando a chamada República Velha.

A ascensão de Vargas provocou profundas mudanças na estrutura política brasileira. O novo presidente fechou o Congresso Nacional, anulou a Constituição de 1891 e depôs governadores de diversos estados, passando a nomear interventores.

Em vez de nomear um político paulista para governar o estado, Vargas escolheu inicialmente o tenente pernambucano João Alberto Lins de Barros como interventor federal. A decisão desagradou grande parte das elites políticas paulistas, que passaram a denunciar a perda da autonomia estadual e a crescente centralização do poder pelo governo provisório.

Em São Paulo, essas mudanças geraram crescente insatisfação. A elite política paulista, que havia exercido enorme influência durante a República Velha, passou a enxergar o novo governo como excessivamente centralizador.

O estopim da revolta

Ao longo de 1931 e 1932, as tensões aumentaram. Em São Paulo, diversos grupos políticos exigiam a redemocratização do Brasil, com a convocação de uma Assembleia Constituinte, a realização de eleições e o fim do governo provisório instaurado por Getúlio Vargas.

A tensão chegou ao ponto máximo em 23 de maio, quando uma manifestação contra o governo federal terminou em violência nas ruas da capital paulista.

Durante o protesto, os manifestantes entraram em confronto com partidários do Governo Federal, resultando na morte de quatro jovens estudantes:

Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Américo Camargo de Andrade, foram baleados e mortos no confronto. As iniciais de seus sobrenomes deram origem à sigla MMDC, que rapidamente se transformou no principal símbolo da Revolução Constitucionalista.

Um quinto jovem, Orlando de Oliveira Alvarenga, também foi ferido e morreu semanas depois, mas as iniciais dos quatro primeiros se tornaram o símbolo mais marcante do movimento.

Os estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo tornaram-se símbolos da Revolução Constitucionalista.
Os estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo tornaram-se símbolos da Revolução Constitucionalista.

A morte dos estudantes provocou enorme comoção em São Paulo e fortaleceu o movimento constitucionalista. Nas semanas seguintes, a mobilização cresceu rapidamente e uniu diferentes setores da sociedade paulista – desde a elite cafeeira, que financiou o movimento, até estudantes, operários e mulheres, que participaram ativamente.

O início da Revolução Constitucionalista

Na noite de 9 de julho de 1932, teve início a Revolução Constitucionalista. Sob a liderança do interventor Pedro de Toledo e do general Isidoro Dias Lopes, tropas paulistas ocuparam quartéis, repartições públicas e pontos estratégicos, dando início ao conflito contra o governo federal de Getúlio Vargas.

Pedro de Toledo e Isidoro Dias Lopes
Pedro de Toledo e Isidoro Dias Lopes

Os objetivos militares declarados pelas lideranças de São Paulo não eram derrubar o Estado brasileiro nem separar São Paulo do restante do país, mas sim resistir ao governo Vargas e forçar negociações para a redemocratização do país, incluindo a convocação de uma Assembleia Constituinte e a restauração da autonomia estadual.

A guerra em território brasileiro

A estratégia militar inicial era defensiva: proteger o território paulista, controlar pontos estratégicos e impedir o avanço federal até que a pressão política surtisse efeito.

Soldados paulistas ao lado de um trem
Soldados paulistas ao lado de um trem

Uma mobilização sem precedentes

As campanhas de recrutamento mobilizaram centenas de milhares de paulistas. Estima-se que cerca de 200 mil pessoas tenham se apresentado como voluntárias, embora entre 35 mil e 40 mil tenham efetivamente participado dos combates.

Os paulistas contavam com armamento leve (fuzis e revólveres), algumas peças de artilharia e aviões improvisados, mas enfrentavam escassez de munições e recursos logísticos.

As forças federais, sob o comando de generais como Góes Monteiro, reuniram cerca de 100.000 homens, incluindo tropas do Exército, Marinha e milícias aliadas de outros estados. Eles tinham superioridade em armamento, com tanques, aviões e acesso a suprimentos contínuos. O governo Vargas também controlava a infraestrutura ferroviária e portuária, dificultando o abastecimento paulista.

As principais frentes de combate

  • Vale do Paraíba
  • Fronteira com Minas Gerais
  • Região de Itararé
  • Fronteira com o Paraná

Durante semanas, cidades do interior paulista conviveram com trincheiras, bombardeios, deslocamento de tropas e interrupções nas comunicações, algo raramente visto na história brasileira.

No sul do estado, a Batalha de Itararé foi um dos confrontos significativos. Os paulistas fortificaram suas posições e usaram táticas de emboscada, aproveitando o terreno elevado para retardar o avanço das tropas federais. No entanto, a superioridade numérica e o uso de artilharia pesada pelas forças federais forçaram a retirada paulista após dias de combates intensos.

O Vale do Paraíba, principal corredor entre São Paulo e Rio de Janeiro, a capital federal na época, foi o teatro de guerra mais importante. Os paulistas estabeleceram uma linha de defesa ao longo de cidades como Cruzeiro, Lorena e Pindamonhangaba, cavando trincheiras e posicionando atiradores em colinas. O objetivo era impedir que as forças federais, avançando do Rio de Janeiro, chegassem à capital paulista.

Soldados paulistas em trincheira
Soldados paulistas em trincheira

Apesar da resistência, o avanço contínuo das tropas federais e a falta de reforços tornaram cada vez mais difícil manter a linha defensiva.

No litoral, a Marinha bloqueou o porto de Santos, cortando o acesso a suprimentos externos e minando as exportações de café, base da economia paulista. Esse cerco gradual desgastou os paulistas, que não conseguiram manter linhas de suprimento eficientes.

A guerra também chegou aos céus com o emprego de aviões pelos dois lados. Pela primeira vez, em um conflito de grande escala no Brasil, aeronaves foram utilizadas em missões de reconhecimento, ataques a posições inimigas e bombardeios.

Avião empregado durante a Revolução Constitucionalista de 1932
Avião empregado durante a Revolução Constitucionalista de 1932

O fim do conflito

Após quase três meses de combates, a situação militar paulista tornou-se insustentável. Isolados e enfrentando escassez de armas, munições e suprimentos, os líderes revolucionários iniciaram negociações com o governo federal. A rendição foi assinada em 2 de outubro de 1932.

Estima-se que 830 combatentes constitucionalistas tenham perdido a vida durante o conflito, número superior ao de soldados brasileiros mortos em combate pela Força Expedicionária Brasileira na Campanha da Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Militarmente, a revolução havia fracassado. Politicamente, porém, os resultados seriam mais complexos.

A revolução foi realmente derrotada?

Como vimos anteriormente, no fim do conflito, São Paulo ficou isolado militarmente e sem condições de continuar resistindo. Em 2 de outubro de 1932, os líderes constitucionalistas assinaram a rendição, encerrando oficialmente o conflito.

Do ponto de vista militar, a resposta é clara: São Paulo foi derrotado.

No entanto, nos anos seguintes, muitas das reivindicações do movimento acabaram sendo atendidas. Em 1933, houve, de fato, uma eleição para a Assembleia Constituinte e, em 1934, foi promulgada uma nova Constituição brasileira.

Carlos Ribeiro de Andrada, presidente da Assembleia Constituinte, assina a Carta Magna de 1934
Carlos Ribeiro de Andrada, presidente da Assembleia Constituinte, assina a Carta Magna de 1934

A revolução, embora derrotada militarmente, aumentou significativamente a pressão sobre o governo Vargas e contribuiu para acelerar o retorno do país ao regime constitucional.

O legado da Revolução Constitucionalista

A Revolução Constitucionalista permanece como um dos eventos mais marcantes da história paulista e brasileira.

Apesar da derrota, a revolução fortaleceu o senso de identidade e unidade em São Paulo. O 9 de julho, data do início da revolução, foi instituído como feriado estadual, celebrado até hoje.

O principal símbolo dessa memória é o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, localizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Com 72 metros de altura, o monumento funciona como mausoléu e abriga os restos mortais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC), além de centenas de combatentes que participaram da revolução.

O Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32 homenageia os combatentes da Revolução Constitucionalista
O Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32 homenageia os combatentes da Revolução Constitucionalista

Mais de nove décadas depois, a Revolução de 1932 permanece como o último grande conflito armado travado em solo brasileiro e um dos capítulos mais importantes da história nacional.

Referências

  • Imagens via Wikimedia Commons sob domínio público
  • A Guerra dos Paulistas | Documentário – https://www.youtube.com/watch?v=PlV0ojKO6wg
  • Fábio Gallacci. Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “Obelisco: marco da resistência paulista em defesa da democracia no passado, presente e futuro” – https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=455843
  • Lorenzo Baer. Aeroflap. “Operações aéreas na Revolução Constitucionalista” – https://www.aeroflap.com.br/en/air-operations-in-the-constitutionalist-revolution/
  • Fundação Getulio Vargas. “REVOLUÇÃO DE 1932” – https://atlas.fgv.br/verbete/6366
  • Eliza Kobayashi. Nova Escola. “O que foi a revolução constitucionalista de 1932?” – https://novaescola.org.br/conteudo/333/o-que-foi-a-revolucao-constitucionalista-de-1932
  • Brasil Paralelo. “Revolução Constitucionalista de 1932: a luta paulista contra a ditadura de Vargas” – https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/revolucao-constitucionalista-de-1932-a-luta-paulista-contra-a-ditadura-de-vargas
  • Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “76 anos da revolta constitucionalista de 1932” – https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=304804
  • Edison Veiga. BBC Brasil. “9 de julho: as marcas em São Paulo da revolução por trás do feriado” – https://www.bbc.com/portuguese/articles/c978gzjg0dlo
  • Juliano Galisi. Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “O que foi a Revolução Constitucionalista? Entendendo o 9 de julho, data magna de São Paulo” – https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=455585