A Guerra dos Mascates (1710–1711): o conflito que dividiu Pernambuco
Após a expulsão dos holandeses, Pernambuco mergulhou em um conflito civil entre os senhores de engenho e comerciantes portugueses pelo domínio econômico e controle político, um confronto conhecido como Guerra dos Mascates.
Publicado em: 23 de fevereiro de 2026A Guerra dos Mascates foi um conflito civil ocorrido durante o período colonial entre 1710 e 1711, em Pernambuco, na época uma capitania portuguesa. O conflito opôs os senhores de engenho de Olinda e os comerciantes portugueses estabelecidos no Recife, conhecidos de forma pejorativa como “mascates” devido à sua atividade comercial.
De um lado, a cidade de Olinda ocupava um lugar de detentora do poder político da capitania por possuir a Câmara Municipal que era responsável pela tomada de decisões da região, e do outro havia Recife, que apesar de subordinada à Olinda devido à Câmara, estava em um momento de grande ascensão em termos de poder econômico.
O objetivo do conflito não era separar a região da metrópole, e sim uma disputa para decidir o controle da região. A seguir, vamos entender o contexto histórico e as causas que levaram a Guerra dos Mascates.
Neste artigo
- Pernambuco após a expulsão dos holandeses
- Os senhores de engenho e os comerciantes portugueses (Mascates)
- A disputa política
- A Guerra dos Mascates
- As consequências
Pernambuco após a expulsão dos holandeses
Em 1630, o Brasil foi marcado pela invasão dos holandeses. A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais adentrou majoritariamente o território pernambucano a fim de dominar Olinda e Recife para controlar a lucrativa produção açucareira.
A presença dos holandeses no Brasil ficou profundamente marcada na história com a governança do militar alemão Maurício de Nassau, que transformou a infraestrutura de Pernambuco e desenvolveu a economia açucareira.

A ocupação holandesa teve fim em 1654 com a Insurreição Pernambucana, que expulsou os holandeses do Nordeste. Mas, depois de 24 anos da presença holandesa em Pernambuco, a sua expulsão, como resultado da Insurreição Pernambucana, também acarretou em uma forte crise que se espalhou pela região de Pernambuco e que acometeu principalmente os senhores de engenho.
Após serem expulsos, os holandeses migraram para as Antilhas e as Ilhas do Caribe. Quando lá se estabeleceram, começaram a produzir açúcar, tornando-se um forte concorrente com o Brasil que mais se favorecia economicamente com esta produção. Essa nova concorrência fez com que os preços do açúcar brasileiro caíssem drasticamente no mercado internacional.
Os senhores de engenho e os comerciantes portugueses (Mascates)
Os senhores de engenho de Olinda controlavam vastas propriedades e representavam a aristocracia rural e tradicional da capitania. Mas com a queda dos preços, começaram a enfrentar dificuldades financeiras. Eles precisavam de dinheiro para manter seus engenhos funcionando, mas a venda do açúcar não gerava mais o lucro de antes. Por isso, muitos deles começaram a pegar empréstimos com os comerciantes portugueses de Recife, acumulando dívidas que não conseguiam pagar.
Em contrapartida, os comerciantes portugueses em Recife chamados de “mascates” ascendiam dentro da economia colonial (O termo “mascate” era utilizado de forma depreciativa para designar comerciantes itinerantes ou pequenos vendedores, sendo aplicado de forma pejorativa aos portugueses do Recife pelos senhores de engenho de Olinda). A cidade foi se tornando um centro importante dentro do comércio colonial, visto que possuía um porto que favorecia a exportação e importação de diversas mercadorias.
Além disso, os mascates também se tornaram credores dos senhores de engenho, ou seja, eles eram as pessoas a quem os produtores de açúcar deviam dinheiro. Com isso, os comerciantes de Recife passaram a ter uma posição vantajosa, pois podiam cobrar altos juros sobre essas dívidas, enriquecendo ainda mais às custas dos senhores de engenho.
A disputa política

Havia entre os senhores de engenho de Olinda um sentimento de injustiça, pois acreditavam que a Coroa Portuguesa estava favorecendo os que eles consideravam como comerciantes estrangeiros em detrimento deles que eram os veteranos de Olinda, os antigos senhores que representavam uma espécie de “elite rural tradicional”.
Em 1709, os comerciantes de Recife conseguiram que a Coroa Portuguesa elevasse Recife à categoria de vila, o que significava que a cidade ganhava autonomia e poderia ter sua própria Câmara Municipal. Esta foi a decisão final que fez a tensão tomar corpo e se transformar em guerra. Essa decisão foi vista pelos senhores de engenho de Olinda como uma ameaça, pois significava que eles estavam perdendo poder político para os comerciantes de Recife.
A Guerra dos Mascates
Revoltados com o crescimento de Recife, Olinda elaborou uma estratégia para dominar de forma política a Capitania de Pernambuco. Além disso, os olindenses almejavam o mesmo tratamento que a coroa portuguesa dava a Recife. Outra reivindicação de Olinda era que Recife, ao invés de vila, fosse rebaixado para um simples povoado.
Em 1710, a Guerra dos Mascates eclode. Os olindenses liderados por Bernardo Vieira de Melo e pelo capitão-mor Pedro Ribeiro da Silva, invadem o território com o intuito de anular a decisão e retomar a subordinação da cidade a Olinda. Os invasores destroem o Pelourinho de Recife, que simbolizava a autonomia da cidade, e libertam os prisioneiros, em um claro sinal de insatisfação com a independência de Recife.

O governador da Capitania de Pernambuco da época, Sebastião de Castro Caldas Barbosa, apoiador dos mascates, fugiu para a Bahia depois de uma tentativa de homicídio pelos senhores de engenho.
Em 1711, os mascates, agora mais organizados e fortalecidos, contra-atacaram e invadiram Olinda, forçando os senhores de engenho a fugir. A escalada do conflito chamou a atenção da Coroa Portuguesa, que decidiu intervir diretamente.
A Coroa nomeou um novo governador, Félix José de Mendonça, para a capitania de Pernambuco, e enviou tropas para restabelecer a ordem. A intervenção resultou na prisão das lideranças de Olinda e na reafirmação de Recife como o novo centro de poder da Capitania.
As consequências
Com a prisão dos líderes de Olinda e a consolidação da autonomia de Recife em relação a Olinda, o conflito acabou. Em 1712, Recife foi elevada à sede-administrativa de Pernambuco, sua Câmara e Pelourinho foram reconstruídos. No ano de 1714, D. João V concedeu aos senhores de engenho de Olinda o privilégio da manutenção de suas plantações e perdão de suas dívidas, em troca de paz.
Com a ascensão de Recife e a diminuição do poder de Olinda, a aristocracia rural baseada nos senhores de engenho perdeu grande parte de sua influência política e econômica. Recife, com seus comerciantes e atividades portuárias, tornou-se o novo centro de poder na capitania, marcando a transição de uma economia agrária para uma economia mais voltada ao comércio.
Referências
- “Revolta dos Mascates”. Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-dos-mascates/. Publicado em: 05 de abril de 2022.
- CASTRO, Ligia. Guerra dos Mascates. Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/guerra-dos-mascates/.
- Recebido em 19/04/2014. Aprovado em 13/09/2014ENGENHOS, AÇÚCARES E NEGÓCIOS NA CAPITANIA DE PERNAMBUCO (c.1655–c.1750) – Breno Almeida Vaz Lisboa(UFF/Faculdade Líder-FAL) – https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaclio/article/view/24458